quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

SOBRE O ATO DE NÃO ESCREVER



Poderia dizer que hoje foi um dia literariamente proveitoso para mim. Enquanto aguardava o chamado do médico pude ler uma parte do ensaio de H.P Lovecraft sobre o horror na literatura. No meu caminho para uma escola que frequentei li cerca de três capítulos do Don Quixote parte 1. Depois que cheguei em casa ainda tive a oportunidade de ler três prefácios do inquietante livro Razão de Revolução de Alan Woods e Ted Grant, não, não é o do Marcuse. Além do mais li uns trechos da Criação Literária Prosa de Massoud Moisés, um mestre indiscutível. Para terminar naveguei em alguns blogs de literatura, cinema e quadrinhos. Tudo muito bem, dá até para dormir contente.
No entanto a situação é um tanto mais complexa. Ora, primeiro de tudo sabe-se que o ato de ler é muito mais fácil do que o de escrever. Quando se lê, principalmente romances, sua imaginação voa longe e pode-se construir personagens a um piscar de olhos, basta a competência do escritor. De fato que isso não deixa de ser um esforço. No que tange a teoria acredito ser muito mais cômodo o trabalho, já que temos um jogo de ideias que exigem um pouco menos da nossa imaginação. Há casos extremos como ler um Foucalt, o filósofo exige do leitor uma atenção soberba e também um erudição ímpar. Até aí tudo bem. Mas o que dizer de alguém que prometeu a si mesmo dedicar-se mais a escrita do que a leitura? Ora, este hipotético alguém construiu este juramento para aumentar sua experiência literária e tentar, ao menos, escrever um pouco melhor. Esse alguém, óbvio, sou eu e sinceramente me questiono sobre até onde posso cumprir este trato comigo mesmo.
São milhares de horas de leitura versos centenas do difícil ato de escrever. Pois é, acho difícil. Antigamente era mais fácil, meu nível crítico era menor. Hoje mesmo posso dizer que a literatura é tão complexa quanto a música. A grande diferença é que quando alguém não sabe tocar um violão, na debalde tentativa de emitir algum som, suas primeiras experiências sem professor são desastrosas. Ao escrever pelo contrário, o seu amigo do lado pode até gostar do seu poeminha que você fez para vizinha e: Ho! - até ela pode se apaixonar por você quando ler a obra prima - não obstante a coisa muda quando mostrarmos esta magnus opus para algum desconhecido. Principalmente se este hipotético desconhecido ter como base um Drumond ou um Bandeira e for versado na arte da crítica literária. Sem dúvida muitas incongruências irão aparecer e o bom poema se tornará apenas um exercício para um universo tão complexo quanto o universo quântico. Qualquer um pode escrever mas poucos são escritores, este é um adágio que tenho lido muito no mundo literário, e temo ser verdade. É que poucos conseguem publicar um livro, e publicar não é certeza de ser lido. Mesmo porque, quando se publica um livro não é certo que é bom. É evidente que é um assunto mais complexo mas a essência fica por aí.

O ato de escrever é bastante tortuoso para mim. Preciso de um lugar tranquilo, saber o que vou fazer e por ultimo: estar motivado. As duas premissas são até fáceis mas a terceira não. Não é porque não gosto de escrever, neste momento sinto as palavras me obedecerem como gueixas e me sinto muito bem, porém muitas vezes preciso de um estímulo, algo que me agite e faça valer a pena. Não obstante nem sempre estou nestes termos, sinto dores de cabeça, tédio, tristeza, depressão, ansiedade e outras coisas que me barram o esforço. E é um grande esforço. Não se escreve só para você mesmo mas para os outros e o outro é a grande questão. Como pode um desconhecido abrir mão do seu precioso tempo para ler o seu maravilhoso conto de fantasmas? Bato ainda mais na tecla: como alguém, que tem como recomendações leituras mais satisfatórias como um Dostoiévski ou um Gogol, que pode estar com uma vontade louca de assistir uma TV, acessar a internet, jogar video game, enfim, como esse alguém irá abrir mão de tantas opções para ler o maior conto de todos os tempos escrito por você? Carece do escritor arranjar subterfúgios para conquistar seu leitor. E estes recursos fazem parte de uma engenharia literária que se tenta se aperfeiçoar mais e mais. É por isso que acredito que o ato de escrever é um trabalho, prazeroso quando concebemos uma ideia e difícil quando tentamos colocá-la no papel. Pois as letras são traiçoeiras, as palavras enganadoras, os parágrafos fanfarrões e as páginas desleais. Para o escritor o texto pode até sorrir mas para o leitor ele pode virar a cara e lhe dar um bofetão, sem ser esta a intenção. Enfim, é uma grande responsabilidade. E sei que é por isso e também por outras coisas que muitas vezes não sou produtivo. Cabe a mim ter disciplina. Ora vejam só, a arte literária que era para mim um modelo de ação libertária tornou-se uma estranha composição de regras. Porém o que vi, e percebi é, que todo grande artista, pode ser visual, músico ou de letras, é tomado por uma obsessão doentia que o faz varar noites desde que tenha sua obra acabada e bem feita. Para se fazer isso é necessário uma disciplina militar, caso contrário a arte será apenas um passatempo.
Todavia a Arte, esta musa ingrata, só nos recompensa com muita adulação e não é a toa que Quiroga nos diz, no seu emblemático decálogo sobre como escrever um bom conto: Ama tua arte como à tua namorada, de todo o coração.  

Um comentário:

  1. O problema é que escrever não é uma escolha, pelo menos pra mim, é como se fosse uma necessidade mesmo, não dá pra escapar...

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