terça-feira, 8 de março de 2011

O MITO DE SÍSIFO (Atualizado)




Não é um livro fácil, mais difícil ainda tentar colocar em algumas frases a complexidade que Camus apresentou. Na minha humilde pesquisa sobre o livro, li algo como “Publicado originalmente em 1942, trata-se de um ensaio clássico do autor de 'A peste', 'A queda' e 'O estrangeiro', sobre o absurdo e o suicídio, publicado durante a Segunda Guerra Mundial, quando o mundo realmente parecia um absurdo.” Parecia um absurdo? Não, não é por aí. Colocar o contexto histórico na criação deste ensaio é algo básico, mas deduzir que Camus se limita a isso é se enveredar em uma direção inócua. É que a filosofia quer, através da razão, codificar o mundo para depois fundamenta-lo em um sentido lógico. Deste modo, o autor precisou chegar a uma conclusão que evoluiu a partir do Iluminismo. O homem de Camus já não é o encantado de Tomas de Aquino que cria uma moral a partir da certeza do divino. Muito pelo contrário, Darwin já tinha desmistificado o mito da Criação e Nietchze martelado qualquer sobra de Deus na Ciência. O tão falado Absurdo de Camus é evocado em uma era de desilusão filosófica que já estava estabelecida antes da Segunda Grande Guerra.
É evidente que temos um Camus que pertence ao Núcleo de Resistência à Ocupação, porém temos também um filósofo que analisa o mundo como um todo, diante da perplexidade que este encerra. No entanto, temos também um pensador que desconfia até da própria razão. Mas isso não era novidade, Hume já fazia isso há muito tempo atrás. Não era essa a ideia principal do ensaio. Camus queria uma resposta filosófica ao suícidio e se não conseguiu é correto afirmar que quase.
Ora, se o mundo realmente carece de sentido, se a natureza impõe seu limite a existência, se não existe Deus, se todas as filosofias falharam em trazer a felicidade, se a morte é o fim de tudo então por que viver? É evidente que este pensamento é um entrave filosófico que o próprio Camus o colocou como fundamental não obstante o direcionamento que a filosofia levava naquela época. Não podemos negar a sutileza de Camus neste ponto, afinal, os filósofos nunca até então tinha levado o suicídio tão a sério.
A resposta do filósofo é quixotesca mas eficiente. Oliver Tod explica: O artista é o personagem que Camus melhor compreende. Ele decreta que o criador leva o absurdo a suas últimas trincheiras. Decerto é verdade para ele, não para todos os artistas. Volta à sua filosofia colocada em imagens - mais uma vez - e sua rejeição aos escritores de tese: "A obra absurda exige [...] uma arte em que o concreto não signifique nada mais do que ele mesmo." Uma "obra de arte se apresenta tal como ele é e não exige glosas" para ser apreciada. Braque dizia: "É preciso contentar-se em descobrir, mas evitar explicar. Em arte só há uma coisa válida: a que não se pode explicar."
O artista consegue de maneira misteriosa trabalhar emoções que tendem ao místico sem precisar dele. Explico: o poeta não precisa acreditar em Deus para que sua arte seja sensível, ele apenas demonstra, através da sua obra, que a beleza esta no mundo. Portanto se a beleza esta no mundo ele pode ter um significado que não seja religioso. O significado, quem dá é o ser. Mas não é um significado comum, deve-se conter um paradigma transcendental. É por isso que o homem absurdo é a resposta que Camus nos oferece. O homem absurdo esta dividido em três sujeitos: o Don Juan, o Ator e o Conquistador. Todos estes sujeitos estão a merce da derrota final, mas agem para se autoafirmarem.No entanto, todos eles, homem absurdo ou não estão condicionados a tarefa da repetição. O mito de Sísifo é a metáfora que abarca a problemática. Na mitologia grega este personagem não levava os deuses a sério e foi condenado a carregar uma pesada pedra de mármore até um pico de uma montanha, ao chegar lá a pedra cai e o ciclo recomeça eternamente. É evidente que este ciclo é mais pesado para alguns, porém, o que se destaca aqui é atitude do ser frente ao mundo. O homem absurdo, que pertence a tradição filosófica do bom pensar não se ilude e tem o fim como certo, o que lhe traz a vantagem de não se enganar, pelo menos no ponto de vista pragmático. Age como Don Juan nas palavras de Camus: 
Para entender bem Don Juan, é preciso referir-nos sempre ao que ele simboliza vulgarmente: o sedutor comum e o mulherengo. Ele é um sedutor comum[1]. Mas com uma diferença: é consciente, e portanto é absurdo.   
Um sedutor que adquiriu lucidez não mudará por isso. Seduzir é sua condição.
Aqui um trecho sobre o ator:
O ator escolheu, portanto, a glória incontável, aquela que se consagra e se experimenta. É ele quem extrai a melhor conclusão desse fato de que, um dia, tudo tem de morrer. Um ator tem sucesso ou não o tem. Um escritor mantém uma esperança mesmo se é desconhecido. Supõe que suas obras testemunharão o que ele foi. O ator nos deixará, no máximo, uma fotografia e nada do que ele era: seus gestos e seus silêncios, seu fôlego estrito ou sua respiração no amor não chegarão até nós. Não ser conhecido dele é não representar e não representar é morrer cem vezes em todos os seres que ele teria animado ou ressuscitado. (É digno de nota ressaltar que ele escreveu sobre o ator do teatro)


Finalmente, sobre o Conquistador ele enunciou:
É necessário viver com o tempo e morrer com ele ou se subtrair a ele para uma vida maior. Sei que se pode transigir e que se pode viver no século acreditando no eterno. Isso se chama aceitar. Mas essa palavra me repugna, e eu quero tudo ou nada. Se escolho a ação, não pense que a contemplação me seja como uma terra desconhecida.

Sem embargo, o Mito de Sísifo é para mim um apoio de vida. Ele não traz ilusões porém incentiva a coragem humana. Restabelece a crença na existência sem os paradigmas religiosos. Estabelece a reflexão como uma ajuda contundente nesta época que ignora o discurso filosófico. 

sexta-feira, 4 de março de 2011

RESENHA: OS SOFRIMENTOS DO JOVEM WERTHER





Certas coisas são consideradas paradigmas no Werther de Goethe: um divisor de águas do romantismo, a consagração do romance epistolar, as ideias fixas do Sturm und Drung, o anti-racionalismo e a exaltação da natureza. Também não quero dissertar aqui sobre a velha lenda, que por sinal verdadeira, que o romance aumentou o número de suicídios quando foi lançado. A proposta não é esta.
Vamos a sinopse: um romântico e idealista alemão, burguês como não deveria deixar de ser, se apaixona pela mulher de um conhecido. É uma paixão patológica que o faz concentrar todo seu ímpeto na imagem da adorada. No relacionamento com o casal, suas insinuações a princípio são tímidas porém com o passar do tempo tudo começa a ficar evidente. Na tragédia final, vai aqui o spoiler por que esta história está exaustivamente contada nos meios literários, o jovem Werther se mata em nome do seu sentimento, desculpem o clichê, avassalador.
De fato o Romantismo, como foi no século XIX, não tem mais lugar no mundo contemporâneo afinal a exaltação dos sentimentos em detrimento da razão acaba com qualquer pragmatismo. Não que a razão seja lá estas coisas mas alguém se matar hoje porque sua suposta pessoa amada não lhe deu bola beira a pieguice. Mas acontece, alguém poderá replicar. Sim, acontece, mas não com o tom que era no passado. Antigamente existia um vínculo místico entre o amor e o objeto amado e todo este vínculo era elaborado com regras claras, muitas vezes platônicas. Hoje os seres passionais estão mais matando o objeto amado do que se suicidando. Sintoma de uma sociedade individualista que não admite perder? Talvez, deixo esta questão para os sociólogos.
Portanto acredito que neste sentido o romance envelheceu, o próprio Quixote, uma obra anterior, acaba sendo mais perene do que este. O Quixote, grosso modo, se embasa em uma narrativa realista. 
No entanto existe muito mais a se falar de Werther. Não temos só uma paixão, temos uma obsessão. Um sentimento análogo ao nosso capitão Ahab de Moby Dick, é evidente que guardada as devidas proporções. É que na verdade temos o ser em busca de uma completude. Ora se o ser, na sua força primordial, não possui o seu objeto que tanto deseja, tende a autodestruição. Com certeza este fato se espelha de certo modo na vida real. No romance, mimese por excelência, existe o exagero que torna a ficção sua razão de existir. Doce razão. Ademais, razão esta que nos faz viver outras existências. Porém, ainda bem, não temos Wetheres ou Ahabes andando por aí, pelo menos não freqüentemente.

Não faço gratuitamente esta analogia entre o romance e a vida real. Como todos sabem, Goethe fez este livro baseado em uma história verdadeira; a sua história mesclada com outra. A edição que tenho em mãos da L&PM Pocket possui um delicioso posfácio que detalha estes acontecimentos de uma maneira bem sucinta, vale a pena conferir. Não só por curiosidade, mas também para entender como foi feita a construção do romance, a maneira genial com que o autor transformou fatos corriqueiros em literatura de qualidade. É claro que quando escrevo fatos corriqueiros não me refiro ao suicídio de Karl Jerusalem, situação lamentável que serviu de mote para a obra.